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Seja no
meio acadêmico ou em revistas de divulgação científica, o criacionismo, via de
regra, não é concebido como uma explicação plausível para a origem da vida. A
partir desse entendimento, evolucionismo é considerado ciência e, criacionismo, simplesmente
dogmatismo religioso. Pedro Bubna cursa o Ensino Médio e é confrontado frequentemente
com esse tipo de argumento na sala de aula. A maioria de seus professores e
colegas é evolucionista. "É muito difícil você conseguir provar para eles,
de uma forma racional, que Deus existe. Eu já fui questionado sobre minhas
convicções. Mas agora eu sei o que posso responder, de uma forma racional,
precisa, sem tomar a fé como explicação para tudo", afirma.
Quando entrou na universidade, o mestre em Química Orgânica pela Universidade de Brasília e professor no Instituto Federal de Ciência e Tecnologia do Tocantins, Tarcísio da Silva Vieira, também recebeu uma carga sgnificativa de conceitos evolucionistas, apresentados como verdade absoluta. Embora fosse evolucionista, o pensamento crítico o levou a uma mudança de concepção quanto a origem da vida. "Percebi que a evolução gradual de distemas mais simples para mais complexos, de sistemas desorganizados para sistemas organizados, não é possível se não houver inserção de energia no sistema através de uma mente inteligente. Isso, então, me levou a questionar aquelas ideias que eu tinha como verdadeiras, oriundas do evolucionismo e aceitar os pressupostos do criacionismo bíblico", relata o pesquisador que defende a ideia de que quando uma teoria é apresentada como um modelo infalível, sem margem para a discussão, torna-se uma doutrinação.
Tarcísio é um dos palestrantes do XI Seminário "A Filosofia das Origens", realizado em Curitiba pela Sociedade Criacionista Brasileira, em parceira com a rede educacional adventista no Sul do Brasil. A proposta lançada em 2002 no Rio de Janeiro e posteriormente levada para outras cidades brasileiras, busca mostrar para professores, estudantes universitários e pré-universitários, entre outros interessados no assunto, que o criacionismo tem sim bases científicas, embora, como o evolucionismo, também relacione pressupostos filosóficos. "No ambiente acadêmico, é de grande importância que você tenha não apenas o conhecimento e a argumentação bíblica, mas que você tenha também a argumentação científica. E o criacionismo bíblico está fundamentado também em conhecimento científico", defende Tarcísio.
A realização de simpósios é um dos programas desenvolvidos pela Sociedade Criacionista Brasileira para estimular a pesquisa e a busca pelo conhecimento sobre a origem da vida numa perspectiva criacionista. "Nós conseguimos reunir um número significativo de palestrantes devidamente qualificados nas várias áreas, tanto na Física, na Química, na Geologia, na Biologia, na Paleontologia, quanto nas Ciências Sociais, e isso incentivou mais as pessoas que se interessam pelo assunto a participarem", comenta o fundador e presidente da Sociedade Criacionista Brasileira, doutor Ruy Camargo Vieira.
"A forma colocada não é baseada simplesmente em achismos ou suposições. Os palestrantes, pela própria formação e aprofundamento nos temas, estão apresentando teorias consistentes, embasadas na ciência", acrescenta o diretor da rede de ensino Adventista para o Sul do Brasil, Douglas Menslin. Segundo ele, isso representa alimento mais consistente para os criacionistas e a possiblidade de uma releitura de suas convicções no caso daqueles participantes que pela primeira vez estão tendo o contato com esta visão.
A bióloga Sara Moreira veio de Maringá, no norte do Paraná, para assistir ao simpósio. "A partir da discussão de evidências, do contato com pessoas que compartilham das mesmas crenças, encontros como esse fundamentam mais ainda a nossa visão de um Deus que planejou tudo", enfatiza a doutoranda em Genética pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Professores como Sara desempenham um papel essencial para que os estudantes, futuros formadores de opinião, defendam o criacionismo com argumentos cada vez mais sólidos. Exercer de forma eficaz essa influência, entretanto, nem sempre é fácil.
Numa sociedade em que o conhecimento científico avança num ritmo frenético - a ponto de surgirem movimentos como o Slow Science, cuja proposta é desenvolver pesquisas científicas num ritmo desacelerado - nem sempre o professor consegue acompanhar os novos conteúdos na mesma velocidade. Segundo o doutor em Geologia pela USP, Marcos Natal de Souza, também palestrante no evento, levando em conta que, quando o assunto é a origem da vida, "os livros são feitos para doutrinar o aluno, reproduzindo o paradigma vigente, que não é o criacionismo", é essencial munir constantemente o professor de informações.
Um dos grandes desafios do criacionismo, na visão de Natal, é também participar dessa geração de conhecimento científico. "Milhares de pesquisas científicas com viés evolucionista são desenvolvidas e seus resultados publicados todos os anos ao redor do mundo. E as pesquisas criacionistas onde estão?", analisa. "No criacionismo, nós temos o nosso pressuposto, a palavra de Deus, que é muito forte. O que ainda falta para nós é traduzirmos esse pressuposto em linguagem científica. E como é que eu faço isso? Produzindo conhecimento de forma empírica, coletando dados, analisando-os, a partir de um viés criacionista. Onde estão as evidências, é para lá que a ciência vai", acrescenta Marcos. Assuntos para quem deseja mergulhar nesse universo, conforme lembra o pesquisador, não faltam. Fica o desafio.